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Dia da Consciência Negra é celebrado em peça teatral

Publicado: Sexta, 01 de Dezembro de 2023, 16h36 | Última atualização em Terça, 05 de Dezembro de 2023, 13h44 | Acessos: 837

Espetáculo pós-dramático Navios Negreiros debateu o espaço do negro na sociedade contemporânea


Na cena, atores negros questionam o racismo nos estádios de futebol e perguntam à plateia: "A banana você come ou você joga?" [fotografia: Alexandre Melo de Oliveira]


Mantendo certa tradição que se formou, espontaneamente, no Campus Votuporanga, no final do segundo semestre letivo foram apresentadas as peças teatrais produzidas por estudantes dos primeiros anos do Ensino Médio Integrado e professores. Desta vez, o curso Técnico em Informática apresentou “O Rico Avarento”, texto de Ariano Suassuna, e os cursos Técnicos em Edificações e em Mecatrônica encenaram, juntos, dois espetáculos: “A Maldição do Vale Negro”, um melodrama de Caio Fernando Abreu, e “Navios Negreiros”, um texto inédito que parte do poema “Navio Negreiro” de Castro Alves para questionar a existência de navios negreiros invisíveis até hoje na nossa sociedade.

De acordo com o professor Eduardo Cesar Catanozi, responsável pela dramaturgia de “Navios Negreiros”, encenada no dia 23 de novembro em alusão ao Dia Nacional da Consciência Negra, a ideia de montar essa peça surgiu da importância do tema e das reflexões que poderiam suscitar na comunidade acadêmica. Catanozi explicou que houve a necessidade de juntar duas turmas na encenação de um mesmo espetáculo para que houvesse uma quantidade significativa de estudantes-atores que se identificam como negros.

 

Mais de 60 atores estiveram em ação na peça "Navio Negreiros" [fotografia: Augusto Miceno]


O texto cria um diálogo com a obra de Castro Alves, a qual denuncia os horrores dos navios negreiros, meios de transporte que traziam para o nosso país escravizados  africanos. Da mesma maneira que o poeta romântico situa o poema “em pleno mar”, a bordo de um navio negreiro, para denunciar o racismo, a peça lembra, segundo Catanozi,  “que o racismo se entremostra, na contemporaneidade, por exemplo, nos ônibus que levam as negras para trabalhar como ‘domésticas’ nas casas das sinhás, nos camburões que levam os negros rebeldes para as chibatas, nos caminhões paus de arara, que levam os negros para trabalhar na lavoura, em alojamentos fétidos onde descansam negros que, no dia seguinte, vão trabalhar em vinícolas no Sul do país. Infelizmente, de acordo com o espetáculo, ainda existe racismo em diferentes locais de manifestação: racismo no futebol, racismo no ensino, racismo em piadas infames, racismo nas oportunidades de emprego, racismo na web. Racismo estrutural, mas racismo. Um racismo que é hipócrita porque não diz seu nome. Pretos eram açoitados, ridicularizados e mortos nos navios negreiros por serem pretos. Ainda hoje, em nossa sociedade, alguns pretos são mortos por serem pretos”.

 

O professor Eduardo Catanozi (à direita) e atores durante o debate após a peça [fotografia: Alexandre Melo de Oliveira]


Para o estudante Luiz Carlos de Oliveira Junior, do 1º ano do curso Técnico em Edificações, “apresentar o espetáculo ´Navios Negreiros´ foi um desafio que trouxe uma enorme evolução como cidadão e como futuro profissional, proporcionando uma reflexão sobre como a sociedade se comporta em relação ao racismo”, explicou.

Já para Gilceleide, mãe da estudante Amanda Alves de Souza do 1º Técnico Mecatrônica, a participação de sua filha na peça contribuiu para o seu desenvolvimento em vários aspectos: “fez com que ela enxergasse a questão do racismo de uma forma diferente; lhe trouxe entendimento sobre as religiões de matrizes africanas; e contribuiu para o crescimento e desenvolvimento de um protagonismo que ela não conhecia sobre si”, relatou. 

 

Amanda Alves de Souza (à esquerda) canta "Cota Não é Esmola", da musicista Bia Ferreira [fotografia: Alexandre Melo de Oliveira]


Contribuições da comunidade. O estudante Victor Hugo Oliveira dos Santos de Matos, do curso de Licenciatura em Física e membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, o Neabi, contribuiu com a produção musical do espetáculo e esteve no palco para recitar o poema "Sou Negro", de Solano Trindade.

Os estudantes do 2º ano de Espanhol participaram na apresentação trazendo à tona, em língua espanhola, questionamentos sobre o racismo na América Latina. Apresentaram também o poema "Me gritaron Negra", da artista peruana Victoria Santa Cruz e a música "Duerme Negrito", da cantora argentina Mercedes Sosa.

O espetáculo também teve participação do professor de engenharia Domício Moreira da Silva Junior (baixo) e dos estudantes Luiz André Evangelista de Farias (guitarra), do 1º ano do curso Técnico em Mecatrônica, e Otávio Daniel Chiarelo (bateria), do 1º ano do Técnico em Informática, que tocaram a música “Todo camburão tem pouco de navio negreiro”, da banca O Rappa, no encerramento da peça.

 

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Assunto(s): Teatro , Consciência Negra , Racismo ,
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